Nos últimos anos, o feminismo negro tem ampliado o seu alcance no debate público,
tornando-se uma abordagem incontornável para superação das desigualdades no
país. Essa expressividade tem favorecido o adensamento de pesquisas sobre suas
bases epistemológicas, o que indica a necessidade de percorrermos os fundamentos
teóricos dessa tradição. Nesse percurso, observa-se que uma das singularidades das
produções feministas negras brasileiras diz respeito à influência das epistemologias
de terreiro, especialmente por conta do protagonismo das mulheres negras como
sacerdotisas das religiões de matriz africana. Nesse sentido, este artigo pergunta
sobre as confluências entre o fazer das religiões de matriz africana e a criação
intelectual de mulheres negras no Brasil. Para tanto, esse trabalho percorre a trajetória
de Terezinha Fernandes Azedias (1945-2022), liderança e mãe de santo do terreiro
da umbanda do Quilombo de São José da Serra, situado em Valença (RJ), a fim de
abordar a experiência, conforme bell hooks (2003), como um espaço privilegiado de
criação teórica. Em termos metodológicos, significa dizer que não há separação entre
o pensar, sentir e o fazer, o que é materializado por meio de uma narrativa que mescla
dimensões afetivas, subjetivas e históricas.